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Dois médicos, um receita antibiótico para dor de garganta e o outro não. Os dois podem estar certos.

  • 25 de mar.
  • 5 min de leitura


Mãe consola menino com dor de garganta. Um contraste entre bactérias e vírus está presente acima, com as palavras "Bactérias" vs "Vírus".
Qual médico está certo? o que receita antibiótico para dor de garganta ou o que não receita?

Um médico receita antibiótico para dor de garganta do seu filho, e outro não. Você como mãe deve acreditar em qual deles?

Renata chegou ao meu consultório com o filho Lucas, nove anos, e com uma expressão que eu reconheço imediatamente: a de quem está confusa e um pouco brava. Não com o filho, não comigo (ainda bem), mas com o sistema. Não sabe se deve dar ou não antibiótico para dor de garganta de seu filho pois dois médicos falaram coisas diferentes.


Dois dias antes, ela me contou que levou Lucas à UPA com dor de garganta, febre de 38°C e aquele mal-estar que quem já cuidou de uma criança conhece. O médico examinou, disse que parecia viral, orientou repouso, antitérmico e hidratação. Sem antibiótico. "Ele explicou que a maioria dos casos passa sozinha".


Lucas não melhorou. Dois dias depois, Renata voltou à mesma UPA, outro médico, outra consulta. Dessa vez, saiu com receita de antibiótico.

"Como dois médicos veem a mesma criança e chegam a conclusões diferentes? Um deles errou? Estão receitando antibiótico à toa? Ou o primeiro não examinou meu filho direito? — Renata, mãe do Lucas, 9 anos

Essa pergunta merece uma resposta honesta. É o que vou tentar trazer aqui.



Quando examino Lucas no consultório, faço as perguntas que a mãe já sabe de cor: quando começou, como é a febre, tem coriza, tosse, placas na garganta? Ela responde tudo como quem observou cada detalhe. Mãe fica assim, com razão.


Olho para a garganta de Lucas. Pergunto a ele onde dói mais. Palpo o pescoço, vejo se está tudo bem com o pulmão. E então sento, olho para Renata, e começo a explicar o que ninguém ainda havia explicado para ela.


A dor de garganta que todo mundo já teve

Dor de garganta é um dos motivos mais comuns de consulta médica no mundo, especialmente em crianças. É também um dos campos onde a medicina lida com mais incerteza do que aparenta porque a causa muda tudo.


O que os números dizem sobre receitar antibióticos e o que podemos aprender para o nosso caso de antibiótico para dor de garganta


Isso significa que na grande maioria das vezes, o antibiótico não vai ajudar, e ainda pode causar náuseas, desequilibrar a flora intestinal, causando diarreia, gerar resistência bacteriana (o que torna mais difícil tratar as próximas infecções, tendo, algumas vezes, necessidade de antibiótico injetável) e outros sintomas desagradáveis.


Então como o médico sabe se é vírus ou bactéria?

Aqui está o nó da questão de Renata. A resposta honesta é: nem sempre dá para saber só olhando. Mas existem ferramentas que aumentam muito a precisão do diagnóstico.

A principal é a Escala de Centor modificada por McIsaac, que pontua sinais clínicos para estimar a probabilidade de infecção estreptocócica:


Quando a suspeita é alta, o ideal é iniciar antibiótico. Se a suspeita é baixa, como a maioria dos casos, pensamos em infecções virais, sem antibiótico. Se o resultado é intermediário, o ideal é confirmar com um teste rápido para estreptococo, um swab de garganta que dá resultado em minutos e está disponível em muitas clínicas e farmácias. Com resultado positivo, o antibiótico é indicado, se negativo, pensamos em viral. Podemos pedir em alguns casos a cultura, contudo demora para ficar pronto e não dá tempo de esperar o resultado para decidir se medicamos ou não.


Voltando ao caso do Lucas e ao que pode ter acontecido

Existem pelo menos quatro cenários possíveis para explicar as duas consultas de Renata:


Cenário 1 — Os dois estavam certos. No primeiro dia, o quadro era realmente viral e o médico agiu corretamente ao não prescrever antibiótico. Em dois dias, houve uma infecção bacteriana secundária, algo que acontece com frequência e o segundo médico identificou um quadro diferente, mais grave, que de fato exigia tratamento.


Cenário 2 — O primeiro errou ou o pronto atendimento não tinha recursos suficientes. A infecção bacteriana já estava presente desde o início, mas o médico não avaliou os sinais clínicos com atenção suficiente ou havia risco intermediário pelo critério de Centor (e não tinha disponível o teste rápido, é muito raro mesmo ter disponível). Uma opção seria conversar com Renata sobre as possíveis condutas: a possibilidade de infecção bacteriana, explicando os sinais para caso surgissem retornar, ou prescrever antibiótico com os riscos já mencionados.


Cenário 3 — O segundo errou. O quadro continuava viral, mas a criança não havia melhorado como esperado. Diante da pressão extrema à qual os profissionais de saúde são submetidos em plantões lotados, do cansaço ou de uma avaliação mais apressada por demandas que o profissional não tem controle, o segundo médico receitou antibiótico por precaução, uma prática comum e problemática.


Cenário 4 — Os dois erraram. Nenhum utilizou critérios clínicos estruturados nem pediu o teste rápido. O primeiro subestimou; o segundo sobreprescreveu. É o cenário mais difícil de aceitar — mas não é incomum em serviços de urgência sobrecarregados com precarização do trabalho do profissional de saúde.



O que aprendi com o Lucas e o que você pode levar para casa

Dois médicos dando respostas diferentes não é necessariamente sinal de incompetência ou descuido. Medicina lida com probabilidade, com quadros que evoluem e com informações que mudam. Às vezes, o que muda não é o médico, é o paciente.


Mas também é verdade que o uso de critérios clínicos objetivos, teste rápido e aliar a experiência clínica do profissional reduz muito a margem de erro, e protege tanto o paciente quanto o médico. Receitar antibiótico por precaução nunca é neutro. Deixar de tratar uma infecção bacteriana confirmada também não.


Renata saiu do meu consultório com algo que os outros dois atendimentos não tinham dado: não uma receita, mas um entendimento. Ela sabia agora o que observar, quando voltar, e o que pedir na próxima consulta. E isso, na minha visão, é o maior serviço que um médico pode prestar.


Referências:

MUTHANNA, A.; SHAMSUDDIN, N. H.; ABDUL RASHID, A. et al. Precisão diagnóstica do escore de Centor para o diagnóstico da faringite estreptocócica do grupo A em adultos em clínicas de atenção primária na Malásia. Malaysian Journal of Medical Sciences, v. 29, n. 4, p. 88–97, 2022.


ASHURST, J. V.; WEISS, E.; TRISTRAM, D. et al. Streptococcal pharyngitis. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing, 2026. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK525997/.


CHOBY, B. A. Diagnosis and treatment of streptococcal pharyngitis. American Family Physician, v. 79, n. 5, p. 383–390, 2009.EBELL, M. H.; BARRY, H. C. Management of sore throat: time to update. American Family Physician, v. 109, n. 4, p. 301–302, 2024.




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