Porque não consigo emagrecer e por que é tão difícil manter o peso depois de emagrecer?
- 9 de abr.
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Porque não consigo emagrecer
Ana (nome fictício, caso real) tinha 42 anos e uma relação complicada com a balança. Era professora e ela passava os dias de pé na sala de aula, chegava em casa exausta para qualquer coisa. O peso foi chegando: gravidez, pandemia, madrugadas corrigindo provas, até que a balança marcou 102 kg e ela parou de subir nela.
Sabia que precisava mudar. Como muitas pessoas, Ana já tinha pesquisado alternativas como "como emagrecer", "como perder peso, como emagrecer de forma saudável" e até estratégias simples como "como emagrecer em casa?". Tentou muitas vezes, com dietas de shake, dieta dos pontos e também quase sem carboidrato (low carb). Mas o ciclo se repetia, perdia 5 kg em 1 mês e ganhava 10 kg nos próximos.
O susto
Os exames trouxeram uma glicemia aumentada, estava com pré-diabetes e hipertensão e o IMC de 38 kg/m². Nessa consulta a nossa conversa mudou de direção.
Falei uma coisa que sempre falo para os pacientes no consultório: Não é falta de força de vontade, é o corpo se protegendo da perda de peso. Os hormônios da fome aumentam e o metabolismo desacelera por ajuste do hipotálamo, nosso centro da fome (HENNEY; WILDING, 2023). O hipotálamo é um órgão primitivo que nos ajudou a sobreviver lá na época das cavernas, nos faz gostar mais de gordura e carboidrato do que de fibras (nós não teriamos sobrevivido se gostassemos mais de alface do que de gordura). É aqui que surgem dúvidas comuns como metabolismo lento e o que fazer quando ele parece dificultar o processo.
Foi por isso que cada dieta de Ana "funcionou" (bem entre aspas) e depois falhou. Se perguntava "porque não consigo emagrecer mesmo tentando?". Isso porque ela não estava fazendo errado, mas estava lutando contra a própria fisiologia sem nenhum ajuda.E já adianto, com ajuda é difícil, mas sem ajuda é muito mais.
12 meses com tirzepatida
Conversamos sobre as opções disponíveis, por todo seu contexto, Ana era candidata ao tratamento farmacológico.
Iniciamos tirzepatida, conhecida comercialmente como Mounjaro®, junto com orientação nutricional e retomada de atividade física.
A tirzepatida é um agonista dual de GLP-1 e GIP (peptídeo insulinotrópico dependente de glicose), uma classe de medicamentos que representa a fronteira mais avançada do tratamento médico da obesidade. Em estudos clínicos, a dose de 15 mg semanais levou a uma redução média de 20,9% do peso corporal em 72 semanas (JASTREBOFF et al., 2022 apud HENNEY; WILDING, 2023).
Em doze meses, a Ana perdeu 20,4% do peso: saiu de 102 kg para 81,2 kg. O IMC caiu de 38 para 30,4. Ela voltou a subir na balança e saiu da pré-diabetes.
"Doutora, eu consigo manter?"
É aqui que a maioria das histórias de emagrecimento para. E é exatamente aqui que precisamos continuar falando.
O tratamento da obesidade é dividido em três fases: perda de peso, manutenção do peso perdido e redução das complicações associadas (HENNEY; WILDING, 2023). A maioria das pessoas só conhece a primeira.
A manutenção é estruturalmente diferente da perda. O corpo de Ana, agora em 81 kg, ainda carrega a memória dos 102 kg. Ou seja, os hormônios que aumentam a fome ainda estão alterados. E pior, o metabolismo ainda é mais lento do que seria em uma pessoa que sempre pesou 81 kg, e pior ainda, isso não é temporário.
O platô: por que a balança para de se mover

Outro fenômeno que Ana já conheceu bem é o platô, frequentemente percebido como emagrecimento travado. Que acontece quando o corpo atingiu um novo equilíbrio entre a ingestão e o gasto calórico.
Com a perda de peso, o organismo precisa de menos energia para funcionar. Em algum momento, mesmo com o mesmo padrão alimentar e de atividade, a balança para.
Isso não significa falha, e sim, que o corpo chegou a um ponto de equilíbrio e é necessário ajustar a estratégia: revisar a alimentação, progredir no exercício, ou reavaliar a dose do medicamento com o médico responsável.
O platô é parte esperada da jornada, não um sinal de que "não está funcionando".
Manter é possível?
SIM, é possível manter. Mas é difícil? Sim, ainda mais sem suporte.
Estudos mostram que a suspensão abrupta de medicamentos como Tirzepatida (Mounjaro®) e semaglutida (Ozempic®) leva a reganho de peso significativo ao longo do tempo. Isso não é dependência no sentido pejorativo mas, sim, o tratamento de uma doença crônica, da mesma forma que um hipertenso não "abandona" o anti-hipertensivo porque a pressão normalizou (HENNEY; WILDING, 2023).
Existem formas de fazer o desmame? Claro!Todo mundo precisa usar medicamentos assim o resto da vida? Não. Mas algumas pessoas precisam.Algumas pessoas conseguem manter o peso apenas com mudança nos hábitos? Sim.
O que significa manter, na prática:
Acompanhamento médico contínuo, com reavaliação periódica da necessidade do medicamento.
Suporte nutricional adaptado à fase de manutenção, que é diferente da fase de perda.
Atividade física, que tem papel EXTREMAMENTE IMPORTANTE na preservação da massa muscular e no gasto energético.
Atenção aos sinais de reganho, que podem indicar necessidade de ajuste de conduta.
Como posso te ajudar nesse processo?
Durante meus atendimentos, o desejo de perder peso é visto com extrema seriedade. Em primeiro momento busco entender tudo que já foi tentado, o histórico de saúde completo e quais os sentimentos envolvidos. Conversamos sobre os hábitos, expectativas e limites, além de examinar e solicitar exames se necessário. A partir disso, definimos alguma metas e traçamos estratégias, que podem envolver ou não medicamentos. O ponto chave é a reavaliação e ajuste, principalmente quando que algo muda ou não sai como esperado.
Em geral, o processo de perda de peso é desafiador e tende a ser solitário. Como uma estratégia, o acompanhamento em grupo motiva e conecta os participantes, por isso, além das consultas individuais, temos um grupo de acompanhamento, o MUDA 21.
Como o MUDA 21 pode ajudar nesse processo?
O MUDA 21 traz um acompanhamento de 21 dias com acompanhamento em grupo com médica (eu) e nutricionista (Brenda Hehnke) que trabalha desde as causas do ganho de peso até o tratamento. Discutimos sobre os principais problemas encontrados no percurso e direcionamos a perda de peso. O programa traz tanto o início do processo e precisa mudar muitos hábitos, como acompanhamento para quem está na fase de manutenção e precisa refinar o processo e manter a motivação. O acompanhamento em grupo cria uma comunidade de pessoas que estão enfrentando o mesmo problema, o que faz com que se compartilhe os desafios e suas soluções. No grupo você poderá ver que outras pessoas também falham, também tem recaídas, também tem vontade de desistir e também conseguem superar muitos desafios e tentações. Isso faz com que todos se sintam menos culpados, mais motivados e apoiados.
Para mais informações sobre o MUDA 21 e como ele funciona, acesse o link abaixo.
Saiba mais sobre o MUDA 21:

Referências
HENNEY, Alex E.; WILDING, John P. H. Obesity: medical management. Medicine, v. 51, n. 7, p. 509–514, 2023.
JASTREBOFF, Ania M. et al. Tirzepatide once weekly for the treatment of obesity. New England Journal of Medicine, v. 387, p. 205–216, 2022. apud HENNEY, Alex E.; WILDING, John P. H. Obesity: medical management. Medicine, v. 51, n. 7, p. 509–514, 2023.
⚕️Este artigo tem fins educativos. O uso de medicamentos para obesidade deve ser sempre avaliado e acompanhado por um médico habilitado.



